Artigo traduzido do inglês. Você pode encontrar a postagem original aqui.

A artista CG e jornalista Lidija Grozdanic entrevistou o sócio da DBOX Keith Bomely sobre a nova campanha para a Macklowe Properties chamada 200 East 59th, um edifício residencial de 35 andares com vista para o Central Park em Nova Iorque. As imagens feitas para esse mesmo projeto recentemente venceram para a DBOX a Medalha de Ouro de Montreaux 2018 na categoria Imagem Corporativa.

Como você se envolveu com o 200 East 59?

Há coisa de um ano atrás, nos pediram para produzir algum conteúdo, e isso envolvia uma campanha nas mídias sociais. Nós começamos de forma modesta, com algumas animações curtas. De alguma forma, isso foi crescendo e acabou se tornando um filme live-action de esculturas de animais em tamanho real desfilando por Manhattan e um filme de marketing de 2 minutos. A maior parte da produção CG ocorreu ao longo de 2 meses, mas a parte live action aconteceu no último verão.

Quem criou o conceito?

A ideia de usar animais selvagens veio do nosso cliente, Harry Macklowe, que queria mostrar como são grandes os terraços dos apartamentos. Ele disse: “Eles são enormes! Dá pra colocar um elefante lá fora!”. Na hora eu já conseguia ver que a ideia de usar animais para comunicar o diferencial-chave do edifício (terraços enormes em cada apartamento) era ótima, mas também era uma forma de fazer uma campanha que se destacaria no cenário lotado do mercado imobiliário de Manhattan. Há tantos edifícios brigando pela atenção de uma platéia finita. Se você se mantém preso à fórmula, vai se perder na multidão. Uma girafa comendo as plantas do seu terraço provavelmente vai chamar muito mais atenção do que um par de taças de vinho.

Nós sabíamos que era uma ideia com a qual poderíamos nos divertir. Poderíamos aplicar referências a cultura e arte. Muito da campanha é de certa forma irônico, evitando ser muito sério. Nosso cliente entendeu e pediu mais comédia, como uma forma de prender a audiência. E nos deu a oportunidade de trabalhar fora dos confinamentos do mundo muito sério do mercado imobiliário de Manhattan.

A música é uma parte importante da campanha. Como foi escolhida?

“I’ll Be Seeing You” não foi a nossa primeira escolha de música, pra ser sincero. Começamos com “The 59th Street Bridge Song”. Fazia muito sentido, a música tem um clima alegre, o edifício fica na Rua 59, com vista para a ponte da Rua 59. Fizemos um primeiro corte do filme usando storyboards desenhados à mão e filmagens reais para aprovar a escolha da música. Entretanto, dois fatores funcionaram contra a aprovação: o ritmo rápido da música pedia cortes também rápidos que se mostraram rápidos demais para nosso cliente, e o licenciamento iria comer todo o nosso orçamento para o filme. Tivemos que voltar para a prancheta.

O cliente tinha um profundo conhecimento musical, mas o período musical aceito por ele era por volta dos anos 70. Trabalhando nesse período, pudemos ouvir a uma porção de canções e acabamos caindo em “I’ll Be Seeing You”. É um conhecido standard e a versão de Jimmy Durante é particularmente tocante. Gostei da ideia de sobrepor visuais divertidos e até bem-humorados a uma trilha meio melancólica. Acho que essa oposição funcionou.

dbox_painting_terrace

A filmagem live action parece ter sido bastante divertida! Como foi?

Conforme o projeto crescia, sabíamos que iríamos fazer um filme de marketing e que o cliente teve a ideia de comprar esculturas em fiberglass dos animais em tamanho real. Inicialmente, seriam vendidos em galerias, mas o escopo rapidamente cresceu e iríamos espalhar esses animais enormes por toda Manhattan! Fomos então chamados a capturar toda a experiência em vídeo. É difícil de acreditar como uma ideia simples pode virar um quebra-cabeças tão grande e complicado.

Tivemos que pedir ajuda a produtores, coordenar com uma empresa de caminhões, negociar com várias agências municipais, comprar as esculturas de uma oficina nos Hamptons, criar banners para os caminhões… É um labirinto, dada a quantidade de ruas de mão única e restrições a veículos comerciais na cidade. Descobri que há um limite de altura de 4,10m para veículos em Manhattan, então tivemos que achar um trailer especial mais baixo para que a girafa não fosse decapitada no meio do caminho. Tivemos alguns “quases” com galhos de árvores muito baixos!

Toda a produção teve cerca de 6 operadores de câmera (alguns inclusive trabalharam nos shots CG), uma câmera num caro, algumas vans, 2 pickups grandes com trailers para animais a reboque e escolta policial. Procuramos toda e qualquer oportunidade de conseguir um bom ângulo, chegando até a cronometrar a travessia do trem da Ilha Roosevelt pela Ponte da Rua 59. Conseguimos parar em frente a diversos pontos importantes de Nova Iorque.

Em algumas locações, haviam modelos e influencers subindo no lombo dos animais para tirar fotos. Quando terminavam, ficou meio que liberado para todo mundo com crianças, turistas e moradores subindo nos trailers e postando no Instagram. Enquanto passávamos, tinha muita gente buzinando e acenando. Lá pelo fim do dia, entretanto, a escolta policial foi ficando sem paciência fomos fazendo cada vez menos. Bem estressante, mas no final foi um dia divertido.

No fim, editamos a maior parte da parada. Simplificamos para manter a duração mais curta por conta do tempo que a audiência mantém sua atenção. Editar é sempre “matar seus favoritos”, como dizem.

200e59th_dbox

Você gostou de trabalhar nesse projeto?

Coletivamente, gostamos de ideias que nos empurram para fora de nossa zona de conforto tanto criativa quanto tecnicamente. A equipe mergulhou de cabeça e pudemos resolver alguns problemas bem esquisitos e responder a algumas perguntas incomuns – como “qual é o som de um elefante com gases?”.

Não somos a Pixar ou a ILM. Não temos equipes enormes ou orçamentos hollywoodianos, então temos que ser inteligentes com as ideias e produção. Estamos sempre conscientes da proporção trabalho-versus-recompensa e constantemente forçamos para chegar ao melhor custo-benefício. É fácil se perder nos detalhes que você está tentando aperfeiçoar. Eu bem queria que tivéssemos o tempo e orçamento para aperfeiçoar tudo. Você precisa ficar de olho no todo e saber que o nível de qualidade deve se manter até o fim. Dito isto, é difícil pra mim olhar para nosso trabalho e não ver o que podia ter sido melhor.

A primeira série de clipes animados que fizemos tinha um efeito de stop-motion, pois estávamos preocupados em captar os movimentos com exatidão. O engraçado é que mesmo com esse efeito e as atividades antropomórficas, quando postamos nas mídias sociais recebemos vários comentários do tipo “Que absurdo colocar esse pobre elefante em perigo! E se ele escorregasse na pedra e caísse no vidro?”.

giraffe_ending_dbox

Vocês fizeram algo novo tecnicamente nesse projeto?

Temos usado V-Ray e 3ds Max há muitos anos. Um dos desafios no workflow que temos enfrentado ultimamente é o de renderizar off-site. Temos uma render farm grande em nossa sede em Nova Iorque, mas tem tanta produção acontecendo ao mesmo tempo que não podemos deixar que isso seja um gargalo para a produção de milhares de frames de animação. Uma grande ajuda foram as recentes melhorias no render brute force. Os aumentos de velocidade sem ter que fazer pre-cache, nos permitiu mandar nossas cenas para serviços de cloud computing de forma mais fácil, tornando tudo mais confiável e previsível. Usando brute force também temos muito menos riscos de flickering na animação. Mandamos as cenas em vários passes para que possamos rodar os layers mais intensos em geometria separadamente, como fur.

Contar uma estória em uma imagem deve estar sempre a serviço de uma mensagem maior sobre aquele projeto em particular. Não pensamos que há necessariamente que haver uma narrativa embutida só por por existir. Cada projeto tem pelo menos uma característica que o diferencia no mercado e a estória numa imagem ou vídeo tem que comunicar essas qualidades. No caso do 200 East 59th Street a mensagem é simples: o edifício tem enormes terraços em cada residência. Isso é único em Manhattan. Não é um lugar como Miami. Os animais reforçam esse ponto, mas o estendemos a um tema maior que abrange as amenidades e pontos importantes do Upper Manhattan.

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Vocês têm criado CG já há algum tempo. Qual foi a maior mudança que já viram?

A maior mudança na indústria desde os anos 90 foi a forma como fazer uma imagem parecer realista ficou mais fácil. Em um determinado ponto, realismo não vai mais ser onde o valor está – haverá necessidade daquele “algo a mais” que torna imagens engajantes e relevantes. Ajuda pensar um set de imagens como uma campanha ao invés de imagens isoladas apenas. Entretanto, é impossível prever o futuro. Antes de começarmos com as mais de 60 imagens do 432 Park Avenue, se você me perguntasse qual imagem do set se tornaria viral eu não colocaria um banheiro no topo da lista.

Qual seu conselho para jovens estúdios que queiram crescer?

Não cresçam! Brincadeira… É algo que deve ser levado muito a sério. Você precisa ser seletivo com quem você contrata. Há tantas questões a considerar, mas eu diria que a principal teria que ser “Esta é uma boa pessoa?” Alguns de nós já estão trabalhando juntos há mais de 20 anos. Temos nossos desentendimentos e discussões, mas no fim do dia sabemos que temos todos uma mesma base moral forte e os interesses uns dos outros sempre em mente. Sem falar das outras qualidades que você procura ao contratar, talento, experiência, comunicabilidade e a habilidade de trabalhar em equipe. Uma contratação errada pode ser um desastre para o estúdio inteiro.

 

 

Escrito por Rick Eloy

Arquiteto, marketeiro, profissional 3D e professor.

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